um dia querida mãe, você vai a sorveteria com seu bebê pequeno no colo, afinal você só queria sair de casa, fazer essa aventura, ser quem sabe um dia a lenda urbana da mãe no puerpério que corre no parque com o bebê no carrinho, pode ser um sushi, pode ser uma visita na casa de uma amiga, pode ser ir ao banco. você vai sozinha porque ou é uma mãe solo como 1/2 do brasil ou seu companheirxs voltou a trabalhar, ou porque simplesmente achou que ia dar conta. enfim, por sorte ou por falta de privilégio você vai fucking só tu e esse bebê nessa viagem da europa organizada em 30 minutos que fica a 1km da sua casa. eu, Thainá do futuro, conheço essa história: você vai chegar desejando um sorvete de pistache, um temaki ou apenas conversar com a sua amiga ou o gerente do banco e seu filho vai ter feito o cocô bomba traseira pescoço, aquele da modalidade que sobe até a cabeça que molha o carrinho e a sua roupa de bosta, ou ele vai começar a chorar de uma forma tão forte e estridente que janis joplin vibra de orgulho, que as pessoas ao lado não vão parar de olhar pra você e oferecerão um sorriso constrangido e incômodo. aí você pensa: "dá o peito!" olha você tem todas as coisas pra esse passeio levou até termômetro e barraca de acampamento mas estava tão eufórica pra sair de casa que foi de vestido gola alta e a única maneira de você amamentar é ficando nua. esse texto é para você querida mãe, eu vim do futuro para te contar algo: seu filho vai pedir pra dormir na casa da avó, da tia, sei lá. eis que chega o dia seguinte, o dia de retorno do seu mamífero, aquele mesmo que cagou da cor do sorvete de pistache que você não tomou e voltou correndo pra casa, ele que te deixou com muitas estrias e que nada se parece com você, que quando foi se despedir de você disse umas cinco vezes que ia sentir saudade e parecia estar quase desistindo da ideia de ir. você vai ligar para ele e vai escutar rapidamente porque ele não quer falar: "oi mamãe posso ficar mais um dia?". aqui estou eu caçando coisa pra fazer, estranhando não ouvir a voz dele por tanto tempo e sentindo uma saudade tão grande que quando ele era bebezinho e eu só queria uma folga daquela correria eu não achava que fosse sentir tanto assim. mas a gente sente. a gente quer o cheirinho de volta, a risadinha, o abraço que só ele tem. a gente se sente um pouco deixada de lado, um pouco ressentida, ao mesmo tempo que está orgulhosa e feliz por um tempo sozinha também sente que tá sendo "menas amada", tipo, como que ele tá guentando ficar longe de mim e eu to aqui me emocionada só de olhar pros brinquedos dele? quando dizem que voa é verdade mesmo. parece que não voa, não voa, mas quando você vê parece que já tá perdendo de vista no céu.
"Os filhos chegam a nós com uma ampulheta nas mãos. Algo acontece em nossas vidas de coelhos de Alice, sempre correndo atrás de alguma ilusão para ganhar outra, que nos cegamos para aquela areia escorrendo pelos dedos batatudos de nossos bebês, de nossas crianças ou adolescentes. Ao não vermos esta ampulheta, não vemos que não vemos. E esta dupla cegueira nos convida a intuirmos que sempre estaremos de mãos dadas com a infância deles. E que, portanto, eles serão sempre os portadores das fantasias e dos brinquedos de nossos lares. Uma mentira que nos contamos para sobrevivermos às nossas rotinas insalubres, que nos fazem estar muito menos com quem mais nos importa. Ao ver nossos filhos crescendo, somos levados para o quanto carecemos de escutar as leis mais inabaláveis do tempo. Há, sim, um sentido de urgência na experiência parental. Nós só temos o agora, que daqui a pouco já não mais estará entre nós, para viver a melhor conexão com nossos pequenos. O mundo vai chamando-os cada v...
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