Certo

Não é como se pelo simples fato de ser mãe, automaticamente, você se torne o ser mais iluminado e evoluído do planeta. Mas ter um filho nos proporciona experiências únicas se mostram grandes oportunidades de mudanças e de aperfeiçoamento pessoal.
Criar um ser humano é difícil, difícil pra caramba (tem horas que pensamos que não damos conta e tem horas que não damos mesmo). Só que depois de certo ponto você consegue encarar os desafios com mais leveza e tirar lições valiosas, você acaba se tornando grata ao seu filho justamente por ser do jeitinho que é e pelos desafios que ele traz.
O Guto tem essa coisa de ser muito fofo, meigo e engraçado, só que também é meio ranzinza, explosivo e "do contra". Às vezes acho que ele veio para me mostrar o quão controladora eu era/sou. Tive que aprender, depois de adulta, a dialogar, a negociar e a ceder de vez em quando, engolir alguns sapos como dizem. Tive que me libertar de tantas crenças, tantas coisas que já não cabiam mais, e não é um processo simples. Por várias e várias vezes levei para o lado pessoal os "maus comportamentos", como se isso tudo fosse só para me afetar, como se fosse "só para me tirar do sério".  A mágica aconteceu quando eu percebi que já estava fora do sério nessas situações por outros motivos, e que suas atitudes só me incomodavam tanto porque - no fundo - eu não fui essa criança que ele está podendo ser. É meio chocante para a minha criança interior ver a criança que meu filho é, super independente, questionador, que se expressa, se impõe. É como se eu fosse silenciada duas vezes. Agora que sou a adulta e poderia me impor, tenho que me calar, ouvir e compreender a criança que coloquei no mundo. Eu escolhi fazer assim. Dou a ele certas liberdades que eu mesma não tinha, mas confesso às vezes isso parece diretamente um tiro no pé. Ele aponta em mim as mesmas inconsistências que eu gostaria de ter apontado na minha própria mãe e não podia.
A minha geração vem de uma criação que não era assim. Eu não me lembro de ter sido validada quando era criança, não lembro de ter voz, de ter minha opinião considerada. Pra mim, ser criança era a coisa mais solitária do mundo. O que eu pensava ou dizia não contava. Hoje, estou fazendo tudo diferente com meu filho e isso implica num trabalhão danado, porque eu estou dando ferramentas para ele, mas não tenho esses recursos dentro de mim, porque eu não fui essa criança. Estou tentando ensinar pra ele um caminho diferente no qual eu mesma às vezes me perco, porque jamais tinha sido trilhado. Estou desbravando, estou fazendo algo meio sem precedentes e isso dá medo.
Dói quando você não sabe se está acertando, não tem certeza se está sendo uma boa mãe, se pergunta se tudo é mesmo tão difícil, tão complicado, tão desafiador, ou se é só pra você que é tudo pesado assim. Dói quando você sente culpa (e você se culpa por quase tudo), quando as pessoas te culpam, quando você se vê julgada. Dói ouvir críticas, mesmo que veladas, à sua forma de criar, ao seu jeito de educar.
Seguir o coração rumo a destinos e resultados até então desconhecidos é um desafio pra essa parte controladora que existe em mim. Descobrir como me colocar nessa coisa de ser firme, porém amorosa, é quase uma alquimia. A única certeza que tenho é que a cada mergulho dentro de mim mesma saio mais forte pro meu filho me ter por inteira, pra ser a mãe que posso ser dando o melhor que posso dar e sendo assim a mãe perfeita com todas minhas imperfeições. Só assim posso olhar pra ele e ver além de mim mesma, da criança que eu fui. A cada momento que me acolho e me aceito, mais eu amo o Augusto, porque enfim consigo amar a minha parte que pulsa nele. 
Ele me fez melhor. Não por ser uma heroína, santa, infalível. E sim por me fazer mais humana e consciente, inclusive, para acolher minhas fraquezas, aprender com os erros, aplaudir as virtudes e ter orgulho dos acertos.
Ele me fez melhor. E o melhor de tudo isso, é que ele me fez mãe.

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