dia das mães

Engravidei. 
Vibrei. 
Senti medo. 
Criei coragem.
A gravidez foi intensa, cheia de ansiedade e com algumas preocupações, mas no geral achei tranquilo. Curti demais estar grávida. Era um estado de paz interior, boas vibrações, açúcar, tempero e tudo que há de bom. Foram nove meses de uma brisa suave que antecedia a maior tempestade da minha vida. Um vendaval que jogaria tudo pelos ares. 
Eu já sentia um carinho especial pelo bebê na minha barriga, sim. Já sentia que era capaz de qualquer coisa por ele, e fui. Passei pelo parto com uma garra que eu nem sabia que tinha. Antes eu ria quando falavam "a dor é terrível mas logo você esquece", só que de fato, parece insuportável num minuto e no outro você não sente mais nada, olhando aquele serzinho chorar e procurar por seu cheiro. 
Quando ele nasceu, mesmo sentindo muito amor, eu não conseguia entender o que estava acontecendo comigo, minha rotina, meu casamento. Tudo parecia tão certo e também tão errado. Ficava triste e me sentia culpada porque eu deveria estar feliz, e no fundo eu estava mesmo, só não conseguia externalizar essa felicidade enquanto lutava pra assimilar tanta mudança, tanta entrega, tanto cansaço. Entrei num modo automático preciso-fazer-esse-bebê-sobreviver-a-qualquer-custo nos primeiros meses. Eu mesma me sentia uma sobrevivente, uma malabarista, um camaleão. Fui levando um dia de cada vez, sempre dando um jeito, e se não tinha jeito, ia meio sem jeito mesmo. Paciência. 
Antes de ter filho a gente já imagina tudo isso, a gente sabe que as coisas vão mudar, que vai exigir uma série de responsabilidades, que vai ter muito choro e noites em claro. Mas o baque que essa reviravolta causa na prática não dá pra prever. É como saber que vai cair, mas não conseguir calcular o tamanho do tombo. Um salto no escuro. Aprender a pilotar em pleno vôo.
"Durma enquanto pode" foi de longe a frase que mais ouvi quando estava grávida.
As pessoas praticamente nos aconselham a hibernar e só acordar em trabalho de parto, como se fosse possível armazenar as horas de sono pra quando a cria nascer. Mas enfim, de qualquer maneira, esse conselho é real, ele faz mesmo todo sentido. Por muuuito tempo o que eu mais queria na vida era dormir como dormia antes de ter que amamentar um bebezinho madrugada adentro. Então sim, me falaram demais sobre a privação de sono, sobre passar infinitas noites em claro dando mamá, trocando, ninando, decifrando choros... 
O que não me falaram foi da insônia que de repente te visita nas fases seguintes. Dos pensamentos que te mantém acordada. "Será que a pediatra quis dizer tal coisa ou foi aquilo mesmo?", "Ele estava diferente hoje, será que aconteceu algo na escola?", "Hoje o rango foi improvisado, amanhã tenho que fazer um almoço mais daora", "Por que não consigo me organizar direito?"
Outra grande e super clichê verdade é que ser mãe é a melhor coisa do mundo e transforma você completamente. 
A parte que nunca comentam é que dói. Que traz medos inesperados e preocupações inéditas, remexe em feridas lá no fundo que nem você percebia. Te deixa vulnerável por dentro, leoa por fora. E isso é difícil pra caramba. Essa transformação que um filho permite é linda, libertadora, recompensante, mas definitivamente não vem num passe de mágica assim que você olha dentro daqueles seus olhinhos. 
É preciso cavar, buscar, brigar, lutar por ela.
Eu sempre escutei e ainda hoje escuto para aproveitar porque passa rápido. Realmente, é impossível discordar. Num instante você está trocando fralda, em outro está acendendo vela de número 8, e logo depois está lendo mensagem: “chego em casa as 21h". 
Os dias são longos, os fins de tarde parecem intermináveis, mas os anos voam e a infância é curta. 
Só não se engane. Apesar de passar rápido, não são poucas as vezes que você pode entrar em desespero porque não sabe o que fazer e a cria precisa de você agora, tipo, AGORA. 
Tem isso também, o imediatismo. Nunca me falaram dele. Tudo é pra ontem, tudo é a mamãe, os dias e noites chegam a se fundir e parecer uma coisa só, o mesmo dia e a mesma noite em um looping infinito.
Hoje eu sei o que é sempre sentir que poderia ter feito melhor, me doado mais, e ao mesmo tempo sentir que não tem nem mais um pedacinho de mim sobrando pra contar a história. Aprendi a esperar. Aprendi que não tenho controle sobre uma porção de coisas. A escolher minhas batalhas.
Tem culpa? Sim. Dúvidas e inseguranças? Sempre. Alguns "será que estou fazendo certo?" aqui, outros "será que estou traumetizando a criança?" dali e a única certeza de que a gente tá errando um monte. Mas tem dias que são diferentes. Dias que fluem, que eu tenho absoluta convicção de que tá tudo dominado. Que eu tô mandando bem demais da conta como mãe. Quando meu filho tem atitudes gentis, quando ele ri de si mesmo, quando consigo contornar uma birra, quando ele me conta seus segredos, quando meu colo acalma um choro aflito, quando vejo que ele é uma criança feliz. 
A maternidade se faz nos sustos, nas brechas, nos desafios e tropecinhos. Quando você responde uma pergunta que também não sabia a resposta. Quando tranquiliza o filho de um medo que a gente também tem. Quando precisa agir em segundos e faz a coisa certa, às vezes nem acreditando que funcionou e sem saber de qual manga tirou aquele trunfo. Quando descobre uma força ou uma calma que nem podia imaginar que existia.

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