Para minha mãe

Durante quase toda minha vida esta data foi motivo de alegria e festa. Eu podia te abraçar, beijar e dizer: parabéns, mãe...

Sinto sua falta todos os dias. Frequentemente estou com sua imagem (o que consigo me recordar) no pensamento, lembrando de coisas que vivemos e imaginando o que poderíamos estar vivendo. Mas hoje a saudade quintuplicou de tamanho. Em dias como esse, sua ausência consegue ser ainda mais dolorosa. Machuca muito não ter você aqui, não te dar aquele abraço e um beijo de feliz aniversário. Nem hoje, nem nunca mais...
Eu sempre escrevo como se você fosse mesmo ler as cartas, o que para alguns pode ser deprimente, porém para mim é terapêutico. Afinal existem coisas que só nós sabemos e coisas que eu nunca saberei sobre nós.
Nossa relação nunca foi fácil. Acho que porque nenhuma de nós era fácil. Éramos ETs de planetas totalmente opostos, parecia que tudo o que era certo pra mim era errado pra você e vice versa. Ah mãe, se você pudesse ver agora, como somos parecidas! Claro, eu tenho minhas peculiaridades e você tinha as suas com certeza, mas no fundo havia tanta coisa em comum, tanta coisa pra trocar, pra somar e pra nos unir... 
Quem já perdeu a mãe recomenda aos outros que aproveitem a sua enquanto há tempo. "Mesmo que ela seja chata, valorize, beije, abrace, porque no dia que ela morrer você sentirá falta", é mais ou menos assim o conselho. E não discordo dele. Só eu sei o quanto queria voltar no tempo e de fato demonstrar todo esse meu amor por você, ele é real. Porém só eu também sei o quanto tentei me aproximar, ser sua confidente, e no final até te salvar de você mesma. Como eu disse, nenhuma de nós era fácil. Mas você mãe, era uma incógnita. 
Eu sempre me senti insuficiente pra você. Tentava te fazer desabafar, tentava te fazer se sentir melhor, queria tanto que você se abrisse e nunca consegui. Muitas coisas a seu respeito só vim saber por terceiros depois que você já não estava aqui pra se defender ou confessar, outras sigo descobrindo ou relembrando, juntando as peças com todas as informações que tenho aqui na cabeça. 
Era tão triste te ver chorar aqueles seus choros inconsoláveis, aquele choro de criança perdida... Como eu queria te ajudar! Como eu queria saber o que se passava aí dentro, o que tinham feito com você, sua história, seus medos. Acho que você não me falava querendo me poupar do sofrimento, na melhor das intenções. Mas se por um lado você via como proteção, eu via como frieza. Falta de conexão. A palavra que nos descrevia é exatamente essa, desconectadas. Você estava sempre nervosa, preocupada, se desdobrando em dez pra fazer tudo sozinha. Nunca deixou faltar nada pra nós, defendia a gente como uma leoa. Hoje eu entendo que era coisa demais pra você aguentar, e sinto muito por isso. Do meu jeito, eu me esforcei pra segurar a barra junto com você. Mas você não queria dividir o peso comigo, talvez pensasse que eu não merecia aquilo tudo. Só que você também não merecia, mãe. Você também era só uma menina. 
O tempo que gastamos brigando, todos os anos daquela distância imensa entre nós, eu queria ter passado te aproveitando. Gravando sua feição na memória, seu cheiro. Te fazendo rir sua risada gostosa. Simplesmente conversando com você. 
Tem dia que eu paro pra pensar na quantidade de coisas que já vivi e você não viu, que parece ter bem mais que 4 anos que você se foi. Como se fosse uma outra vida. Em outros dias, dói tanto que parece que você foi embora ontem.
Às vezes esqueço e tenho vontade de te ligar pra dizer como estou indo. Quando o Augusto fala ou faz algo engraçado logo penso em te contar. É uma sensação horrível. Também não aguento ver outros adultos passando tempo com suas mães. Me sinto um pouco má admitindo isso, mas dá inveja. Queria tanto isso também. 
Me sinto feliz, grata e honrada quando as pessoas apontam semelhanças entre nós duas. Os olhinhos fechados ao sorrir, a gargalhada, o bico de brabeza. Desde o modo de andar até a forma de fazer humor. No tempero da minha comida e na mania de ficar mexendo no cabelo. Faço muitas coisas que você fazia e que na época me pareciam bobeira. Tenho orgulho quando reconheço em mim, um traço teu. Você era uma força da natureza.
Hoje eu consigo te perdoar pela infância solitária, por toda a liberdade que eu interpretava como "ela não se importa comigo". Por nossos últimos anos de convivência que foram tão difíceis. Por ter sentido que fui mais tua mãe do que tua filha. Por todas as vezes que desisti de fazer você me notar e dei a outra face, fingi que estava tudo bem mas não estava nada certo. Te peço perdão por ter dito coisas da boca pra fora, pelas batidas de porta, pelas vezes que saí sem avisar, mas sabe, eu queria uma mãe que me ajudasse, não que precisasse ser ajudada. Queria ser cuidada, e não cuidar. Raros momentos eu me sentia amada. Me perdoe, estou sendo sincera. Tentava te dar o mínimo de trabalho possível porque parecia que só o fato de eu existir te atrapalhava. 
Queria mais que tudo no mundo ter conseguido te dar felicidade. 
Não ter mais mãe é sobrar lágrima e faltar colo. É se perguntar toda hora como seria se ela estivesse aqui. É não ter referência, se espelhar no desconhecido, buscar sinais e encontrar silêncios como resposta. Não ter mãe é colocar o filho no colo e se entristecer pela vó que ele não teve. É fazer esforço pra se lembrar da voz, do aroma, das feições... reservar um cantinho da memória pra guardar as boas lembranças torcendo para que nunca se apaguem. É chegar em casa e sentir que chegou no lugar errado porque ela não está lá. É saber cedo o sentido da palavra "insubstituível", querer a opinião de quem não pode dizer o que pensa. Não ter mãe é abandono por falta de opção, é simplesmente um vazio. Enorme e que ninguém preenche. É ver apenas com o coração o que os olhos não conseguem mais enxergar.
Na data de hoje, 41 anos atrás, você vinha ao mundo fazer sua história. Ajudou muita gente, fez pelos outros o que ninguém nunca havia feito por você e mais um pouco. Eu admirava demais a sua compaixão, seu jeito de dar um jeito pra tudo. Admirava sua força, sua correria. Você me ensinou sobre ser feminista sem nem saber ao certo o termo ou o movimento. Isso é muito especial pra mim. Tento me lembrar de você nos momentos felizes, você sempre estava resolvendo algum pepino. Eu não tinha ideia do quanto você sofria enquanto eu crescia. E quanto comecei a ter, achava que era culpa minha. Ah como eu queria mais tempo com você, pra me dizer que não existia nenhum culpado a não ser o destino. Escolhas foram feitas. E infelizmente por conta delas, nosso tempo juntas nessa existência foi curto. 
Você está presente através do meu amor, da minha saudade sem fim, de tudo o que me ensinou. De tudo o que você fez enquanto viveu, e que deixou marca profunda em todas as pessoas que conheceram e amaram você. No olhar do Augusto, no sorriso da Maria Vitória, na confiança que eles têm na vida. Você faz morada no fundo da minha alma, mãe. Nunca vou te esquecer. Hoje eu sei que queria ver apenas o meu bem em tudo. E muitas vezes, eu não entendia, e hoje eu entendo. E lembro de tudo. Eu não sei descrever, e nem tenho tantas palavras, só sei que te amo cada vez mais.

"Agora está tão longe, vê, a linha do horizonte me distrai, dos nossos planos é que tenho mais saudade, quando olhávamos juntos na mesma direção, aonde está você agora além de aqui dentro de mim?
Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou, vai ser difí­cil eu sem você, porque você está comigo o tempo todo e quando vejo o mar existe algo que diz, que a vida continua e se entregar é uma bobagem, já que você não está aqui o que posso fazer é cuidar de mim, quero ser feliz ao menos... lembra que o plano era ficarmos bem?"

Eu sinto muito. Me perdoe. Eu te amo. Sou grata 😭💗

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