Quinze dias. Dias em que meu corpo tem sangrado, tem doído. Dias em que estou aprendendo a ser seu alimento. Você está conhecendo meu cheiro e eu o seu. Nós nos encontramos e nos apaixonamos. Por um tempo eu ainda vou sentir medo quando você não reagir como eu previ. Vou sentir raiva quando eu não puder dormir. Eu vou chorar quando me pegar na raiva e também quando me pegar no amor. Por um tempo eu vou me sentir lenta e chorar por isso. Vamos ter bons momentos. Maus momentos. Apenas momentos. Você saiu de mim e se move e me olha como se ainda não soubesse. Eu te olho como se algo que vem lá de dentro me dissesse que somos um só. A natureza me premia no dia que você chega com uma descarga hormonal de ocitocina que é pra garantir que eu te olhe e sinta você profundamente assim e me sinta em paz. E assim eu e você vamos ser colados por um tempo. Vamos caminhar passos rumo a um desprendimento em que cada uma caminha pro seu lado, mas lado a lado. Porque nascer não é um parto, não é um dia. É transformador, é enorme, é lento, é por vários dias. É sair do casulo. Estamos saindo. E é por isso que pra nascer um bebê uma mulher tem que morrer pra sua alma renascer mais forte. É por isso que parte de cada filho fica gravada na nossa alma. É por isso que nós mulheres podemos ser tantas ao longo da vida. Você pela primeira vez, eu já vivendo mais um de novo. Estamos nascendo, filho. Juntos.
"Os filhos chegam a nós com uma ampulheta nas mãos. Algo acontece em nossas vidas de coelhos de Alice, sempre correndo atrás de alguma ilusão para ganhar outra, que nos cegamos para aquela areia escorrendo pelos dedos batatudos de nossos bebês, de nossas crianças ou adolescentes. Ao não vermos esta ampulheta, não vemos que não vemos. E esta dupla cegueira nos convida a intuirmos que sempre estaremos de mãos dadas com a infância deles. E que, portanto, eles serão sempre os portadores das fantasias e dos brinquedos de nossos lares. Uma mentira que nos contamos para sobrevivermos às nossas rotinas insalubres, que nos fazem estar muito menos com quem mais nos importa. Ao ver nossos filhos crescendo, somos levados para o quanto carecemos de escutar as leis mais inabaláveis do tempo. Há, sim, um sentido de urgência na experiência parental. Nós só temos o agora, que daqui a pouco já não mais estará entre nós, para viver a melhor conexão com nossos pequenos. O mundo vai chamando-os cada v...
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